Sem efeito
Por causa do mau uso de inseticidas, bicho-mineiro desenvolveu enzimas
capazes de quebrar moléculas de inseticidas organofosforados.
O
bicho-mineiro-do-cafeeiro (Leucoptera coffeella), que na sua fase jovem
é uma pequena larva de coloração amarela-esverdeada,
é uma praga bastante conhecida dos cafeicultores e, juntamente
com a broca-do-café (Hypothenemus hampei), são as principais
pragas da cultura do café. As larvas alimentam-se de tecidos (parênquima)
das folhas, principalmente daquelas localizadas da parte superior e mediana
da planta, deixando injúrias que tem forma de galerias ou minas,
daí a razão do nome “bicho-mineiro-do-cafeeiro”.
A conseqüência dessas injúrias tem um reflexo direto
da produção de frutos, principalmente em regiões
de clima quente e seco, como as regiões de cerrado, o que faz com
que cafeicultores utilizem métodos de controle da praga. O método
de controle mais usado para o controle do bicho-mineiro-do-cafeeiro é
o químico e, durante as últimas décadas, a classe
dos inseticidas organofosforados tem sido bastante usada para o controle
dessa importante praga do cafeeiro.
ORGANOFOSFORADOS
NO CONTROLE
O
controle químico com organofosforados e outros grupos de inseticidas,
normalmente é feito de forma curativa, realizado quando se constata
um ataque em torno de 20% de folhas minadas. Em áreas problemáticas
(p.ex., Triângulo Mineiro) o controle é realizado quando
o ataque alcança 5% de minas com larvas vivas no terço superior
da planta. As aplicações dos inseticidas podem ser feitas
tanto via foliar quanto via solo.
O controle via foliar, visa basicamente à mortalidade das larvas
no interior das minas presentes nas folhas do cafeeiro, embora os tratamentos
possam acarretar também a morte de adultos. Por isso, são
usados produtos com ação em profundidade, que atingem as
larvas no interior das folhas. Os inseticidas organofosforados têm
boa ação de profundidade, mas apresentam curto efeito residual
(25 a 30 dias). Normalmente são feitas duas a três aplicações
de organofosforados, com intervalo de 30 a 40 dias para um controle eficiente
do bicho-mineiro-do-cafeeiro. Porém, em regiões quentes
como o Triângulo Mineiro, onde o ciclo de vida da praga é
mais curto, esse intervalo pode cair, aumentando consideravelmente o número
de aplicações.
Na aplicação via solo, os compostos são normalmente
formulados em grânulos de pronto uso, sem diluição
em água nem óleo. Os inseticidas granulados sistêmicos
são enterrados sob a saia do cafeeiro por granuladeiras mecânicas
ou matraca, no período de novembro a fevereiro, pois o uso desses
produtos exige umidade no solo que garanta a sua absorção
pela planta. Geralmente são feitas uma ou duas aplicações
no intervalo de 60 a 90 dias.
Decorrente do uso intensivo e exclusivo do controle químico, o
bicho-mineiro-do-cafeeiro tem desenvolvido resistência a alguns
compostos organofofosforados utilizados para o seu controle.
EVOLUÇÃO
DA RESISTÊNCIA A INSETICIDAS
No
campo, em uma infestação de bicho-mineiro-do-cafeeiro, naturalmente
encontram-se larvas susceptíveis e resistentes a inseticidas. Porém,
as larvas resistentes se encontram em pequeno número. Quando se
faz uma aplicação de inseticida para controlar a praga,
a maioria das larvas morre e apenas um pequeno número sobrevive.
As larvas que sobreviveram, neste caso resistente, vão se tornar
adultas e se reproduzirão, aumentando o número de larvas
resistentes na lavoura. Aplicações subseqüentes do
mesmo produto ou de outro produto similar contribuirão para reduzir
a freqüência das larvas susceptíveis e aumentar à
das resistentes, chegando ao ponto extremo de termos nas plantações
de café uma situação inversa a do início do
controle da infestação, ou seja, apenas alguns indivíduos
susceptíveis e a grande maioria resistente. As larvas de bicho-mineiro-do-cafeeiro
resistentes usam de uma maneira mais eficiente enzimas do seu corpo para
quebrar as moléculas de inseticidas, requerendo altas doses de
inseticidas para causar-lhes mortalidade.
Estudos a respeito da ocorrência, dispersão, mecanismos bioquímicos
e a associação como o uso de inseticidas em populações
de bicho-mineiro-do-cafeeiro, mostraram que a maioria das populações
estudadas apresenta resistência a alguns inseticidas organofosforados
de uso mais antigo, como dissulfotom, etiom e paratiom-metílico,
estando bastante crítico o problema em regiões sujeitas
ao intenso uso destes compostos como o Triângulo Mineiro (Tabela
1).
O estudo preliminar de dispersão sugeriu que a migração
de insetos resistentes de uma região a outra, embora perca em importância
para a intensidade de uso local de inseticidas, é também
relevante na evolução da resistência. Já com
relação aos mecanismos bioquímicos, resultados baseados
em estudos com sinergistas, compostos usados para evidenciar o envolvimento
de enzimas destoxificadoras, sugere o envolvimento delas na resistência
a organofosforados em populações de bicho-mineiro-do-cafeeiro
em Minas Gerais.
ALTERNATIVAS
DE MANEJO
O
programa de manejo da resistência é mais efetivo quando implementado
de modo preventivo, ou seja, no início da evolução
da resistência. Infelizmente, a maioria das pesquisas nesta área
é iniciada somente após a constatação de falhas
no controle e, no caso do bicho-mineiro-do-cafeeiro não é
uma exceção. Para um diagnóstico inicial e monitoramento
de populações resistentes, há necessidade de se realizar
estudos laboratoriais para avaliar a suscetibilidade de populações
da praga ao produto em questão, o que não é feito
nas regiões de risco produtoras de café.
Tratando-se do bicho-mineiro-do-cafeeiro, com exceção da
Região da Zona da Mata Mineira, nas demais regiões produtoras
de Minas Gerais os níveis de resistência já se encontram
relativamente altos, o que torna o manejo mais difícil. O uso de
inseticidas e a migração de indivíduos resistentes
são fatores primariamente importantes no manejo da resistência
a inseticidas em populações de bicho-mineiro-do-cafeeiro.
Portanto, considerando-se a relevância da dispersão, como
medida principal para manejo é necessário reduzir temporariamente,
em escala regional, o ritmo de uso de alguns inseticidas. A tomada de
decisão de controle é um fator muito importante dentro do
programa de manejo de praga, infelizmente, para a grande maioria dos cafeicultores
essa ação é baseada em calendário de aplicações,
não considerando os parâmetros populacionais da praga e de
seus inimigos naturais. Portanto, se faz necessário também,
o monitoramento do bicho-mineiro-do-cafeeiro e de seus inimigos naturais
por meio de planos de amostragem (convencional ou seqüencial), o
que dará suporte ao cafeicultor na hora de tomar a decisão
da real necessidade de se aplicar um inseticida. Na amostragem convencional,
o número de amostras é fixo, independentemente do nível
de infestação da praga, exigindo, normalmente, muito tempo
para a tomada de decisão. Por exemplo, 50 plantas/talhão
de 10 hectares. Já na amostragem seqüencial, o número
requerido de amostras é variável. Para isto, o avaliador
utiliza uma tabela (Tabela 2), contendo o número de plantas a ser
examinado e os limites inferior (LI) e superior (LS), além de colunas
a serem preenchidas durante a amostragem referentes aos números
de folhas minadas encontrados. O cafeicultor deverá percorrer um
talhão representativo da lavoura em ziguezague, iniciando a amostragem
em cinco plantas e retirando amostras de 10 folhas/planta, anotando o
número acumulado de folhas minadas. Se o número de folhas
minadas cair dentro do intervalo dos limites inferior (LI) e superior
(LS) (coluna do meio dos intervalos) prossegue-se amostrando, porém
se a infestação estiver abaixo do limite inferior (coluna
à esquerda do LI) ou acima do limite superior (coluna à
direita do LS), a decisão de controlar ou não é tomada,
isso permite uma redução no tempo de amostragem, diminuindo
o seu custo. Neste contexto, a orientação técnica
sobre amostragem e momento da aplicação é de crucial
importância.
Uma nova ferramenta que está sendo implementada com esta finalidade
é o método de monitoramento do bicho-mineiro-do-cafeeiro
por meio do uso de feromônio sexual, que já foi sintetizado
e está em fase de regulamentação para comercialização,
tecnologia que poderá diminuir a intensidade de aplicação
de inseticidas na lavoura. Armadilhas com feromônios (atrativos
sexuais) são valiosas ferramentas para a detecção
e o monitoramento de insetos. O emprego de feromônio permite detectar
a presença da praga na lavoura, até mesmo em baixas densidades,
avaliar a distribuição espacial da população
no campo e caracterizar os picos populacionais, auxiliando o agricultor
a direcionar as ações de controle. Este instrumento tem
sido empregado com sucesso no monitoramento de várias espécies
de pragas no Brasil, um bom exemplo é o monitoramento e coleta
massal do besouro da broca-da-cana (Migdolus fryanus) em lavouras de cana-de-açúcar.
Um outro aspecto muito importante é que, até a década
de 40, a regulação das populações desse inseto
ocorria por meio do controle biológico natural e técnicas
culturais. Vários estudos têm revelado espécies de
insetos que se alimentam das larvas do bicho-mineiro-do-cafeeiro como
vespas predadoras, parasitóides e crisopídeos, entre outras.
Cultivares resistentes ou tolerantes, pesquisa e práticas culturais
por meio de redução do espaçamento e aumento da densidade
de plantas também são medidas importantes, pois o microclima
pode ser alterado, originando um ambiente úmido e sombreado que
é desfavorável à proliferação do bicho
mineiro. As principais cultivares recomendadas para o plantio adensado
são: Catuaí, Rubi, Acaiá, Obatã, Iapar 59,
Topázio, Tupi e Catucaí, entre outras.
A rotação de produtos é outro fator importante para
retardar a evolução da resistência a inseticidas,
por isso, se o agricultor opta por usar sempre os mesmos inseticidas,
às vezes pertencentes a um único grupo, como por exemplo,
o dos organofosforados, o bicho-mineiro-do-cafeeiro se tornará
resistente a estes inseticidas mais rapidamente do que se fossem usados
também produtos de outros grupos de forma rotacional (Figura 2).
Os principais grupos de inseticidas usados para o controle do bicho-mineiro-do-cafeeiro
são organofosforados, carbamatos, piretróides, misturas
(organofosforados ou carbamatos + piretróides), derivados da nereistoxina
(Cartap), acil-uréias e neonicotinóides, entre outros, o
que torna possível a rotação de produtos, que deve
ser feita sob orientação técnica de um engenheiro
agrônomo ou especialista na área de toxicologia de inseticidas.
O sucesso de um programa de manejo de resistência a inseticidas
em bicho-mineiro-do-cafeeiro dependerá do esforço conjunto
entre agricultores, indústrias químicas e pesquisadores
e, principalmente, da realização de estudos em larga escala
e por um período prolongado sobre monitoramento, mecanismos, evolução,
dispersão da resistência a inseticidas, o que tornará
possível a sua implementação mediante cooperação
a nível regional entre os atores envolvidos para adoção
das medidas mitigadoras e de regulamentação de uso de inseticidas
na cultura do café.
CONSEQÜÊNCIAS DO DESENVOLVIMENTO DA RESISTÊNCIA
A INSETICIDAS
Em populações que desenvolveram resistência, ao se
efetuar a aplicação de inseticidas usando a dose recomendada
pelo fabricante, poderão ocorrer falhas de controle. As conseqüê-ncias
disto são aplicações mais freqüentes de inseticidas
pelos cafeicultores ou o aumento da dose do produto; uso de misturas na
maioria das vezes sem a orientação técnica; e eventual
substituição do inseticida, devido a sua perda de eficácia,
por um novo produto freqüentemente mais caro. Esses fatores comprometem
o programa de manejo integrado de pragas (MIP) em vista da maior contaminação
do meio ambiente com pesticidas, destruição de organismos
benéficos (vespas predadoras, vespinhas parasitóides e bicho-lixeiro,
entre outros) e elevação nos custos de controle da praga.
Sabe-se também que a descoberta e o desenvolvimento de uma nova
molécula química estão se tornando cada vez mais
difíceis e caros, o que limita a substituição de
inseticidas. Sendo assim, o manejo da resistência do bicho-mineiro-do-cafeeiro
a inseticidas tem-se tornado uma importante necessidade dentro de um programa
de manejo de pragas da cultura do café.
Daniel de
Brito Fragoso,
Unitins Agro
Raul Narciso Carvalho Guedes,
Universidade Federal de Viçosa
Revista
Cultivar Grandes Culturas nº 60
www.cultivar.inf.br
Tabela 1 – Mortalidade de larvas de bicho-mineiro-do-cafeeiro (Leucoptera
Coffeella) pelas concentrações discriminatórias (CL99)
de inseticidas estabe
lecidas para uma população padrão de susceptibilidade.
| População |
%
Mortalidade |
|
|
Clorpirifós |
Dissulfoton |
Etiom |
Paration-metílico |
| Araguari |
65,30* |
7,41* |
21,00* |
10,20* |
| Bambuí |
95,00 |
17,52* |
15,00* |
14,00* |
| Cambuquira |
95,95 |
59,00* |
87,00 |
100,00 |
| Caparão |
95,95 |
90,00 |
98,00 |
95,95 |
| Capelinha |
100,00 |
81,00 |
29,29* |
90,00 |
| Guiricema |
92,90 |
20,20* |
98,00 |
99,00 |
| Patrocínio |
100,00 |
55,10* |
29,29* |
76,76 |
| Ponte
Nova |
100,00 |
98,00 |
98,00 |
99,00 |
| São
Gotardo |
100,00 |
21,21* |
47,47* |
70,70* |
| Simonésia |
100,00 |
98,00 |
98,00 |
99,00 |
* Mortalidade
indicativa de ocorrência de resistência pelo teste Z a 95%
de probabilidade
Tabela 2
: ¹ plano de amostragem seqüencial para avaliar o nº de
folhas minadas por
bicho-mineiro-do-cafeeiro (Leucoptera coffeella).
| Nº
de |
Amostras
do terço médio e superior (10 folhas/planta) |
| Plantas
Examinadas |
Nº
de folhas minadas menor que LI, não controlar |
Limite
Inferior (LI) |
Nº
de folhas minadas entre LI e LS, continuar amostrando |
Limite
Superior (LS) |
Nº
de folhas minadas maior que LS - controlar |
| 5 |
|
11 |
|
19 |
|
| 6 |
|
14 |
|
22 |
|
| 7 |
|
17 |
|
25 |
|
| 8 |
|
19 |
|
29 |
|
| 9 |
|
22 |
|
32 |
|
| 10 |
|
25 |
|
35 |
|
| 11 |
|
28 |
|
38 |
|
| 12 |
|
30 |
|
42 |
|
| 13 |
|
33 |
|
45 |
|
| 14 |
|
36 |
|
48 |
|
| 15 |
|
39 |
|
51 |
|
| 16 |
|
42 |
|
54 |
|
| 17 |
|
44 |
|
58 |
|
| 18 |
|
47 |
|
61 |
|
| 19 |
|
50 |
|
64 |
|
| 20 |
|
53 |
|
67 |
|
¹ Tabela
adaptada de Vieira Neto et al., 1999
|