| Cultivar
nº 59 / Março 2004
Cada
vez mais terríveis
No decorrer dos anos, diferentes insetos têm assumido o posto de
pragas-chave, aumentando os danos às culturas. Sistemas de plantio,
cultivos sucessivos da mesma cultura, uso indiscriminado de agroquímicos
podem ser os principais fatores para o aumento de insetos-praga.
Com
o aumento da importância do Agronegócio para o Brasil e da
necessidade do aumento da produção agrícola, novas
fronteiras e tecnologias têm sido exploradas, propiciando assim
condições climáticas favoráveis para surgimento
de novas pragas.
Assim, na década de 70, a soja era plantada apenas no Rio Grande
do Sul, existindo apenas uma espécie de percevejo-praga, ou seja,
Nezaraviridula,típica de zonas temperadas.
Porém, com a expansão da área de soja para o Paraná,
Brasil Central, Nordeste etc., surgiram outras espécies de percevejos,como
Piezodornsguildinii, Euschistus heras, tão ou mais importantes
que a primeira delas; outros gêneros de percevejos têm surgido
em outras áreas, como Dichelops,Edessa,Neamegalotmnus,entre outros.
Quando o café era restrito a São Paulo e Paraná,
conduzido em espaçamentos fechados, o grande problema era a broca-do-
café (Hypothenemushampei).Posteriormente, com o aparecimento da
ferrugem do cafeeiro em 1970,o café migrou para outras regiões
como Espírito Santo, Minas Gerais, etc. Estas mudanças de
regiões, aliadas às alterações de esabertos)
e da diminuição do número de plantm; Icovapara controlar
a ferrugem, fizeram com que o bicho-mineiro (LeuoopteracoffeelIa) se tomasse
a praga mais importante, além do aumento populacional de cigarras,
moscada-raiz, ácaro-di-Ieprose (transmitindo a mancha anular) e
cigarrinhas (veiculando a bactéria Xylella). lagartas têm
aparecido devido a desequilíbrios biológicos quando produtos
químicos são aplicados indiscriminadamente.
Portanto, diferentes condições climáticas podem determinar
o aparecimento de novas pragas, mais adaptadas às novas condições.
Considerando-se a extensão territorial do Brasil e conseqüente
diversidade climática, o aumento da área agrícola
leva à variação da entomofauna para a mesma cultura
e, às vezes, variação na época de ocorrência
dentro da cultura. Por exemplo, pragas do algodoeiro que para São
Paulo ocorrem no final do ciclo, em Mato Grosso do Sul são comuns
no início do plantio.
A procura de novas fronteiras agrícolas leva à necessidade
de novas variedades adaptadas às diferentes condições
ambientais e tecnológicas. Foi o que aconteceu com o algodoeiro:
no passado usavam-se apenas as variedades de algodoeiro IAC.
Com a expansão da cultura do algodoeiro para o Centro-Oeste, foram
importadas variedades americanas que passaram a ser melhoradas para a
região. No
entanto, o problema de pulgões se intensificou, com a transmissão
da doença chamada "azulão" (mosaico das nervuras
de Ribeirão Bonito), para estas novas variedades, demandando maciças
aplicações de produtos químicos.
E a lagarta-do-cartucho do milho (Spodoptera frugiperda) também
passou a ser importante, atacando intensamente flores e maçãs,
destruindo folhas e perfurando as hastes do algodoeiro. Este exemplo poderá
ser aplicável a outras culturas, com a introdução
de novas variedades.
Atendendo à demanda ambiental, novas técnicas de cultivo
vêm sendo utilizadas.
O plantio direto, uma realidade no Brasil com mais de 17 milhões
de ha, altera totalmente o microclima em termos de regime de água
de solo, estrutura e temperatura do solo, disponibilidade de nutrientes,
compactação do solo etc.
Desta forma, com a exploração desta técnica, elasmo
(Elasmapalpus lignosellus) que é praga de áreas secas, de
solos arenosos e de cerrado, perdeu a importância, mas surgiram
outras pragas como os corós (OJleoptera: Scarabaeidae), bicudo
ou tamanduá-da-soja (Sternechussubsignatus), cascudo (Myochrousarmatus),
torrãozinho (Aracanthusmaurei) para a soja.
Portanto, são as condições edáficas favorecendo
ou desfavorecendo estágios de pragas que vivem no solo.O próprio
tipo de solo pode favorecer o desenvolvimento de novas pragas. Em Santa
Catarina, em solos escuros, ricos em matéria orgânica, Diabroticaspeciosa
é muito mais importante para o milho, destruindo raízes,
pois as fêmeas preferem colocar ovos nestes locais. E até
o aumento das populações de percevejos-castanhos (Scaptocoris
castanea e Atarsocoris brachiariae) poderia estar relacionado a estas
novas técnicas de cultivo, bem como à ocupação
de novas áreas (anteriormente ocupadas por pastagens, por exemplo).
CONTINUlDADE
DA CULTURA
A continuidade da cultura na área como ocorre com a cultura do
milho (safra de verão, safrinha e cultivo de inverno em algumas
regiões), permite que a praga continue na área, não
havendo necessidade de procura de novos hospedeiros e aumentando a sua
população no local.Assim, hoje S.frugiperdaé muito
mais importante para o milho do que no passado, ocorrendo problemas de
resistência a agroquímicos, e modificando o seu hábito,
cortando plantas no início da cultura, como se fosse lagarta rosca,
atacando folhas e cartuchos e sendo, em muitas áreas, mais importante
do que a lagarta-da-espigado milho (Helicoverpazm), atacando intensamente
a espiga.
As rotações de culturas preconizadas nos novos sistemas,
alteram a entomofauna. Assim, S. frugiperda pode migrar, em altas populações,
para o algodoeiro se ta! cultura estiver próxima de áreas
de milho e encontrando variedades suscetíveis, conforme comentado
anteriormente, causam grandes danos, que é o que está ocorrendo
atualmente. Em áreas de plantio direto, Dichelops spp. Permanecem
sob a palha após a soja e atacam o milho, sugando a base da planta,
provocando sintomas de murchamento e secamento. Chegam a causar prejuízos
de até 29% na produção de milho.
IRRIGACÃO
As novas técnicas de irrigação via "pivot"
central favoreceram algumas pragas que têm preferência por
umidade, como lagartas roscas ou mesmo a mosca-da-espiga (Euxesta spp.),
que é importante para o milho doce.
Em cana-de-açúcar, a proibição da queimada,
alterou o microclima da cultura e hoje, nas áreas de cana crua,
a cigarrinha-da-raiz (Mahanarva fimbriolata), que não tinha importância
na cana colhida após a queimada, chega a causar perdas da ordem
de 11% na produtividade agrícola do Estado de São Paulo,
com redução de 1,5% em açúcar.
A entrada de novas pragas pode também ocorrer. Embora tenhamos
melhorado nosso sistema de quarentena nos últimos anos, pragas
exóticas têm entrado no país, como o bicudo-do-algodoeiro
(Anthonomus grandis) na década de 80, o minador-dos-citros (Phyllocnistis
citrella)em 1996 e mais recentemente, em 2003, diversas pragas de florestas,
como o psilídeode "concha", para citar apenas alguns
exemplos.
A ocorrência de biótipos, como Bemisia tabaci biótipo
B, que é muito mais importante que B. tabaci registrada desde a
década de 70 como praga em feijoeiro. O novo biótipo tem
sido mais relevante por transmitir também viroses no feijoeiro
(mosaico dourado) e provocar o amadurecimento irregular de frutos do tomateiro,
prateamento das folhas da abóbora (cucurbitáceas), talo
branco em brócolis e fumagina intensa em diversas culturas (soja,
algodoeiro etc).
Outros aspectos como a nutrição das plantas, ou a utilização
de micronutrientes via foliar, poderão contribuir para o aumento
ou diminuição de pragas. É sabido, por exemplo, que
o ácaro rajado (Tetranychus urticae) ocorre mais em solos ricos
em nitrogênio. Esta relação nutrição
X pragas é pouco estudada no Brasil, mas poderá ser de grande
importância na ocorrência de pragas, existindo teorias como
a da trofobiose que tentam explicar a ocorrência de pragas relacionada
com a nutrição da planta.
Todos estes fatores (desequilíbrios biológicos, novas áreas
de plantio com novas variedades, condições climáticas
e edáficas variáveis, novas técnicas de cultivo,
introdução de novas pragas, rotação de culturas,
nutrição das plantas etc.) têm contribuído
para o aumento de pragas ou alteração das pragas convencionais.
Portanto, as alterações do meio ambiente provocadas pelo
homem com a expansão de fronteiras e desenvolvimento de novas tecnologias
de produção têm sido uma das principais razões
para o aumento dos problemas de pragas no Brasil. Sem dúvida, o
planejamento do sistema de produção de culturas em uma determinada
região é o passo crucial para a implementação
de estratégias efetivas de manejo de pragas.
No entanto, parece que este princípio básico para uma Agricultura
Sustentável não está sendo obedecido no Brasil. Por
exemplo, a monocultura em grandes escalas (como soja e cana-de-açúcar)
e a continuidade de culturas em uma área (como milho e algodão
safrinha) têm causado profundas alterações na dinâmica
populacional de pragas. Com isso, percevejos da soja têm causado
sérios danos nas culturas de trigo, algodão e milho; a lagarta-da-maçã
do algodoeiro (Heliothis virescens) tem atacado vagens de soja com maior
freqüência; a lagarta-do-cartucho do milho (S. frugiperda)
tornou-se uma das principais pragas do algodoeiro etc.
Com a presença constante de determinadas pragas devido à
expansão de épocas de cultivo, o uso de agroquímicos
tem sido bastante elevado, aumentando assim os casos de resistência
de insetos e ácaros. Dentro deste contexto, as estratégias
de manejo de resistência aos agroquímicos devem fazer parte
integrante dos programas de controle de pragas, além da implementação
efetiva de táticas de controle não químicas.
Portanto, qualquer alteração no sistema de produção
de culturas deve ser considerada com bastante cautela para evitar o aparecimento
de novas pragas ou mesmo de alterações genéticas
ou fisiológicas de pragas já existentes. Com a possibilidade
de introdução de plantas geneticamente modificadas que são
resistentes a algumas pragas no Brasil, esta nova tecnologia também
deve ser utilizada com os mesmos cuidados de outras medidas de controle
em sistemas de produção.
Como em qualquer outra tática de controle, devem ser realizados
estudos relacionados à evolução da resistência
de pragas para as plantas geneticamente modificadas, bem como a avaliação
do seu possível impacto sobre os organismos não-alvos, microbiota
do solo etc.
AS
PRAGAS E O USO DE AGROQUÍMICOS
Até
o aparecimento dos inseticidas organossintéticos no final da década
de 30 do século passado. os insetos eram controlados de forma empírica
ou na mllioria das vezes mantidos em equilíbrio pela ação
de agentes de mortalidade biótica, ou seja, seus inimigos naturais
(parasitóides, predadores e patógenos). Com o aparecimento
dos inseticidas clorados e posteriormente de outros grupos (ciclodienos,
fosforados e carbamatos) pensou-se que todos os problemas de pragas poderiam
ser resolvidos com os inseticidas "modernos". Assim, eles passaram
a ser aplicados indiscriminadamente, prejudicando o homem e o ambiente.
No período compreendido entre a descoberta das propriedades inseticidas
do DDT em 1939 e a década de 60, considerado por muitos como a
"fase negra do controle de pragas", começaram a aparecer
os desequilíbrios biológicos. ou seja, a aplicação
de agroquímicos que não eram seletivos, e que matavam além
das pragas. seus inimigosnaturais, fazendo com que muitas pragas, após
o seu controle, livres de seus agentes de mortalidade biótica,
reaparecessem com muito mais intensidade, no fenômeno conhecido
como ressurgência. Até insetos sem grande importância,
considerados secundários tornaram-se primários, pois livres
de seus inimigos naturais, aumentavam a sua população e
passavam, muitas vezes, à condição de pragas chaves.
Com a evolução da resistência de pragas a alguns agroquímicos,
a situação se tornou ainda mais crítica devido a
aplicações mais freqüentes destes produtos com o uso
de doses cada vez mais elevadas para o controle de pragas.
Embora com a conscientização da sociedade, iniciada com
o famoso livro "Primavera Silenciosa" de Rachei Carson em 1962,
chamando a atenção de forma contundente para os problemas
ambientais ocasionados pelo uso indiscriminado de agroquímicos,
ainda hoje o problema de desequilíbrios biológicos continua.
É evidente que, atualmente, com a atenção voltada
para uma Agricultura Sustentável, exigem-se agroquímicos
seletivos e de menor impacto ao meio ambiente. Mas nem sempre esta conscientização
existe.
José
R.P. Parra e Celso Omoto,
ESALQ/USP
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