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nº 84 / Abril 2006
Resistência
ou não
Dúvida quanto à efetividade dos inseticidas fisiológicos
utilizados no controle do curuquerê-do-algodoeiro, uma das principais
pragas da cultura que ataca desde a emergência das plântulas
até a formação dos capulhos, leva a pesquisa a realizar
testes para verificar possível resistência da praga aos produtos.
A
cotonicultura brasileira, atividade agrícola de alta expressão
no setor primário da economia do país, é uma grande
geradora de empregos, desde a fase de produção no campo
até as etapas de beneficiamento e industrialização.
Somente a região Centro-Oeste responde por cerca de 70% da produção
brasileira. Entre os grandes entraves para a obtenção de
alta produtividade de algodão no Cerrado está a ocorrência
de infestações de pragas, cujos ataques às lavouras
representam até 45% do custo da cultura. Por outro lado, se não
devidamente controladas, os danos causados pelas pragas podem reduzir
significativamente a produção. Por isso, manter o nível
de infestação das pragas sob controle configura-se como
um grande desafio ao agricultor.
Nessa cultura o controle de pragas ainda fundamenta-se principalmente
no controle químico, chegando-se a realizar de 12 a 16 aplicações
de pesticidas durante um único ciclo. A utilização
constante e indiscriminada do controle químico pode levar à
seleção de organismos-praga resistentes, intoxicação
de aplicadores e animais, contaminação de águas subterrâneas,
mortalidade de agentes de controle biológico natural, além
de onerar os custos. Assim, pesquisas no sentido de minimizar os custos
de produção permitem o vislumbre de grande economia para
o país, além de contribuir para a sustentabilidade da cultura
do algodoeiro.
Dentre as pragas que atacam a cultura, destaca-se o curuquerê-do-algodoeiro
(Alabama argillacea), cujas infestações podem causar reduções
significativas à produção (Miranda & Lucena,
2003; Oliveira et al., 2002). Ocorrendo desde a emergência das plantas
até a formação dos capulhos, o curuquerê promove
danos tanto quantitativos quanto qualitativos ao algodão. Ao causar
o desfolhamento da planta, reduz a capacidade de fotossíntese e,
conseqüentemente, a quantidade de fibras produzida pela planta. No
caso de ataques tardios, com as maçãs já formadas,
ocorre a maturação precoce destas, o que deprecia a qualidade
da fibra (Bleicher, 1990; Domiciano & Santos, 1994; Ferreira &
Lara, 1999).
A safra 2004/05 foi caracterizada por freqüentes surtos populacionais
da praga, com desfolhas intensas comprometendo a atividade fotossintética.
A utilização de produtos químicos é uma das
medidas mais utilizadas para o controle da praga, dentre eles se destacam
os inseticidas denominados fisiológicos, que atuam como reguladores
do crescimento dos insetos. Essas altas infestações têm
lançado dúvidas quanto à efetividade das doses utilizadas
para o controle do curuquerê.
Visando encontrar alternativas para a solução desses problemas,
a Embrapa Algodão (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária),
em parceria com a Fundação GO, o Fundo de Incentivo à
Cultura do Algodão em Goiás (Fialgo) e a Universidade Estadual
Paulista (Unesp) vêm realizando pesquisas em algodoeiros de várias
regiões do estado.
Uma dessas pesquisas foi realizada a fim de investigar a possibilidade
de resistência do curuquerê a vários inseticidas fisiológicos.
A utilização de produtos fisiológicos é uma
das medidas mais utilizadas para o controle de lagartas. Entre as vantagens
do uso desses produtos está a característica comum a eles
de apresentarem baixa toxicidade a animais e seres humanos, além
de sua seletividade para inimigos naturais. Entretanto, as altas infestações
verificadas no campo têm lançado dúvidas quanto à
efetividade das doses utilizadas para o controle do curuquerê. Através
da análise da toxicidade dos inseticidas fisiológicos contra
o inseto, podem-se comparar os níveis de eficiência desses
produtos contra a fase larval do curuquerê.
Nos bioensaios desenvolvidos no Laboratório de Biologia de Insetos
da Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias –
Unesp, Campus de Jaboticabal (SP), lagartas de terceiro ínstar
de curuquerê coletadas em lavouras das regiões de Acreúna
e Ipameri (GO) foram colocadas para se alimentar sobre folhas de algodoeiro
e pulverizadas com soluções dos inseticidas em torre de
Potter (25 lb/pol2). A concentração foi determinada a partir
da dose recomendada pelos fabricantes de cada produto, com base em volume
de calda de 200 l/ha. No tratamento controle, as lagartas foram pulverizadas
com igual volume de água destilada estéril. Foram utilizadas
no bioensaio lagartas de mesmo tamanho e idade, coletadas de criação
de manutenção de geração F1 oriundas do campo.
Para cada tratamento foram utilizados 40 insetos, em quatro repetições.
As lagartas e alimento tratados foram a seguir mantidos em recipiente
de criação (tubos de PVC medindo 21,5 cm de altura e 14,5
cm de diâmetro), sendo o alimento substituído a cada 24 horas
(folhas não tratadas). A mortalidade foi aferida a cada 24 horas
durante 11 dias consecutivos, a fim de se definir a toxicidade aguda (96
horas após a aplicação) e crônica (até
a ecdise seguinte) dos produtos testados.
Os resultados mostraram que a eficiência de controle situa-se acima
de 80% em todos os produtos testados, quando avaliados após cinco
a sete dias da aplicação. Os produtos fisiológicos
(entre eles novaluron, triflumuron e diflubenzuron) atuam na síntese
de quitina e, por isso, apresentam ação relativamente lenta,
porém as taxas de mortalidade cresceram com o passar do tempo após
a exposição.
Em ambas as populações testadas – oriundas de Ipameri
e Acreúna, as taxas de mortalidade foram relativamente baixas a
24 horas após a aplicação, aumentando substancialmente
a 96 horas e atingindo os valores mais elevados na avaliação
efetuada a 168 horas, caracterizando assim sua ação típica
de regulação do crescimento, ou seja, causando letalidade
principalmente no final do ínstar do inseto.
Esses bioensaios serviram para mostrar que o fracasso no controle da praga
pode estar relacionado com outras questões ligadas à tecnologia
de aplicação dos inseticidas e não necessariamente
à perda de eficiência dos produtos. Cuidados relacionados
ao monitoramento constante e eficiente da lavoura, ação
rápida entre a detecção e o controle efetivo, não
utilização de produtos de origem e características
duvidosas (os chamados “piratas”) e boa calibragem dos equipamentos
(pressão, velocidade de trabalho e tipos de bico adequados; limpeza
de filtros e bicos) são indispensáveis para garantir uma
ação satisfatória dos inseticidas.
Assim, embora a pulverização seja o principal método
utilizado para tratamento fitossanitário da cultura do algodoeiro,
esta tem sido realizada de maneira empírica. Conhecimentos básicos
sobre pulverização são desconhecidos pela maioria
dos agricultores, técnicos e responsáveis pela aplicação,
conseqüentemente problemas de controle de pragas como o curuquerê
resultam em desperdícios significativos de produtos, de mão-de-obra
e de produtividade de algodão.
Segundo Ramos, 1997, em várias culturas diferenças superiores
a 30% na vazão dos bicos da barra. Rotação inadequada
do equipamento, causando deficiência na agitação e
a segregação de pós-molháveis; filtros de
malha inadequada, causando entupimento excessivo dos bicos ou retenção
do produto; inadequação do tamanho de gotas à operação,
potencializando as perdas por deriva e vazamentos são as causas
mais comuns de perdas de produtos fitossanitários no campo.
Na maioria dos casos em pulverizações se associa a eficácia
do controle principalmente ao volume de calda aplicado, deixando de lado
todos os outros fatores envolvidos na eficácia de uma aplicação.
Dessta forma, não bastando apenas conhecer a dose do produto aplicado
por hectare, é importante quantificar o produto que chega às
partes da planta onde está o alvo a ser atingido. O curuquerê-do-algodoeiro,
por exemplo, é facilmente encontrado na folha e por toda a planta,
assim, é importante uma boa distribuição do produto
por toda a planta, principalmente quando se utiliza produto de ação
local (sem redistribuição no vegetal). A boa distribuição
do produto aplicado e a definição do tamanho de gotas adequado
são fundamentais para se obter eficácia nas pulverizações.
Quando se entende que o produto que efetivamente controla a praga é
aquele que atinge o alvo, e não o aplicado, e que, quanto menor
a diferença entre o volume na ponta de pulverização
e o que atinge o alvo, mais eficaz e econômico se torna o tratamento
fitossanitário das diferentes culturas (Ramos, 2003).
É indispensável entender que as folhas agem como um filtro,
protegendo o curuquerê e dificultando a penetração
das gotas na cultura. Esse filtro é variável com a arquitetura
da planta, a área foliar e o estádio de desenvolvimento
da cultura. Se imaginarmos o algodoeiro desde a emergência, passando
pelos primeiros botões florais e primeiro capulho, até o
início da abertura destes, temos grande variação
do tamanho da planta, além do aumento do tamanho e número
de folhas. Nesse sentido, passam a ser necessários diferentes tipos
de calibragens ao longo do desenvolvimento da cultura, buscando melhor
atingir o alvo e obter melhor eficácia de controle. Trabalhos realizados
nessa linha em outras culturas e no algodão comprovam que gotas
muito grandes e/ou muito pequenas têm baixa eficiência na
penetração (Saab, 1996; Matthews, 1999; Ramos, 2001; Bettini,
2005).
A escolha do modelo, da vazão e da pressão de trabalho da
ponta de pulverização a ser utilizada está diretamente
ligada à eficácia da pulverização, sendo necessário
conhecer alguns conceitos básicos. As pontas de pulverização
hidráulicas produzem diferentes tamanhos de gotas, e mundialmente
a pulverização é classificada em faixas: muito fina,
fina, média, grossa ou muito grossa.
Pelo exposto, as pulverizações no algodoeiro têm sido
feitas sem o conhecimento de tamanhos de gotas comprovadamente adequado,
oscilando bastante, levando a falhas de controle e as dúvidas quanto
à eficácia de alguns produtos, o que evidencia a necessidade
de trabalhos que avaliem a penetração de gotas na planta,
uma vez que algumas das principais pragas dessa cultura ocorrem por toda
a planta. Com esse objetivo, têm sido realizadas avaliações
da eficácia da penetração de diferentes tamanhos
de gotas de pulverização no algodoeiro em diversas alturas
da planta.
José
Ednilson Miranda,
Embrapa Algodão
Paulo Cesar Bettini,
Syngenta
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