IRAC-BR NOTÍCIAS - Julho/2007

Cultivar nº 84 / Abril 2006

Resistência ou não
Dúvida quanto à efetividade dos inseticidas fisiológicos utilizados no controle do curuquerê-do-algodoeiro, uma das principais pragas da cultura que ataca desde a emergência das plântulas até a formação dos capulhos, leva a pesquisa a realizar testes para verificar possível resistência da praga aos produtos.

A cotonicultura brasileira, atividade agrícola de alta expressão no setor primário da economia do país, é uma grande geradora de empregos, desde a fase de produção no campo até as etapas de beneficiamento e industrialização. Somente a região Centro-Oeste responde por cerca de 70% da produção brasileira. Entre os grandes entraves para a obtenção de alta produtividade de algodão no Cerrado está a ocorrência de infestações de pragas, cujos ataques às lavouras representam até 45% do custo da cultura. Por outro lado, se não devidamente controladas, os danos causados pelas pragas podem reduzir significativamente a produção. Por isso, manter o nível de infestação das pragas sob controle configura-se como um grande desafio ao agricultor.
Nessa cultura o controle de pragas ainda fundamenta-se principalmente no controle químico, chegando-se a realizar de 12 a 16 aplicações de pesticidas durante um único ciclo. A utilização constante e indiscriminada do controle químico pode levar à seleção de organismos-praga resistentes, intoxicação de aplicadores e animais, contaminação de águas subterrâneas, mortalidade de agentes de controle biológico natural, além de onerar os custos. Assim, pesquisas no sentido de minimizar os custos de produção permitem o vislumbre de grande economia para o país, além de contribuir para a sustentabilidade da cultura do algodoeiro.
Dentre as pragas que atacam a cultura, destaca-se o curuquerê-do-algodoeiro (Alabama argillacea), cujas infestações podem causar reduções significativas à produção (Miranda & Lucena, 2003; Oliveira et al., 2002). Ocorrendo desde a emergência das plantas até a formação dos capulhos, o curuquerê promove danos tanto quantitativos quanto qualitativos ao algodão. Ao causar o desfolhamento da planta, reduz a capacidade de fotossíntese e, conseqüentemente, a quantidade de fibras produzida pela planta. No caso de ataques tardios, com as maçãs já formadas, ocorre a maturação precoce destas, o que deprecia a qualidade da fibra (Bleicher, 1990; Domiciano & Santos, 1994; Ferreira & Lara, 1999).
A safra 2004/05 foi caracterizada por freqüentes surtos populacionais da praga, com desfolhas intensas comprometendo a atividade fotossintética. A utilização de produtos químicos é uma das medidas mais utilizadas para o controle da praga, dentre eles se destacam os inseticidas denominados fisiológicos, que atuam como reguladores do crescimento dos insetos. Essas altas infestações têm lançado dúvidas quanto à efetividade das doses utilizadas para o controle do curuquerê.
Visando encontrar alternativas para a solução desses problemas, a Embrapa Algodão (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária), em parceria com a Fundação GO, o Fundo de Incentivo à Cultura do Algodão em Goiás (Fialgo) e a Universidade Estadual Paulista (Unesp) vêm realizando pesquisas em algodoeiros de várias regiões do estado.
Uma dessas pesquisas foi realizada a fim de investigar a possibilidade de resistência do curuquerê a vários inseticidas fisiológicos. A utilização de produtos fisiológicos é uma das medidas mais utilizadas para o controle de lagartas. Entre as vantagens do uso desses produtos está a característica comum a eles de apresentarem baixa toxicidade a animais e seres humanos, além de sua seletividade para inimigos naturais. Entretanto, as altas infestações verificadas no campo têm lançado dúvidas quanto à efetividade das doses utilizadas para o controle do curuquerê. Através da análise da toxicidade dos inseticidas fisiológicos contra o inseto, podem-se comparar os níveis de eficiência desses produtos contra a fase larval do curuquerê.
Nos bioensaios desenvolvidos no Laboratório de Biologia de Insetos da Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias – Unesp, Campus de Jaboticabal (SP), lagartas de terceiro ínstar de curuquerê coletadas em lavouras das regiões de Acreúna e Ipameri (GO) foram colocadas para se alimentar sobre folhas de algodoeiro e pulverizadas com soluções dos inseticidas em torre de Potter (25 lb/pol2). A concentração foi determinada a partir da dose recomendada pelos fabricantes de cada produto, com base em volume de calda de 200 l/ha. No tratamento controle, as lagartas foram pulverizadas com igual volume de água destilada estéril. Foram utilizadas no bioensaio lagartas de mesmo tamanho e idade, coletadas de criação de manutenção de geração F1 oriundas do campo.
Para cada tratamento foram utilizados 40 insetos, em quatro repetições. As lagartas e alimento tratados foram a seguir mantidos em recipiente de criação (tubos de PVC medindo 21,5 cm de altura e 14,5 cm de diâmetro), sendo o alimento substituído a cada 24 horas (folhas não tratadas). A mortalidade foi aferida a cada 24 horas durante 11 dias consecutivos, a fim de se definir a toxicidade aguda (96 horas após a aplicação) e crônica (até a ecdise seguinte) dos produtos testados.
Os resultados mostraram que a eficiência de controle situa-se acima de 80% em todos os produtos testados, quando avaliados após cinco a sete dias da aplicação. Os produtos fisiológicos (entre eles novaluron, triflumuron e diflubenzuron) atuam na síntese de quitina e, por isso, apresentam ação relativamente lenta, porém as taxas de mortalidade cresceram com o passar do tempo após a exposição.
Em ambas as populações testadas – oriundas de Ipameri e Acreúna, as taxas de mortalidade foram relativamente baixas a 24 horas após a aplicação, aumentando substancialmente a 96 horas e atingindo os valores mais elevados na avaliação efetuada a 168 horas, caracterizando assim sua ação típica de regulação do crescimento, ou seja, causando letalidade principalmente no final do ínstar do inseto.
Esses bioensaios serviram para mostrar que o fracasso no controle da praga pode estar relacionado com outras questões ligadas à tecnologia de aplicação dos inseticidas e não necessariamente à perda de eficiência dos produtos. Cuidados relacionados ao monitoramento constante e eficiente da lavoura, ação rápida entre a detecção e o controle efetivo, não utilização de produtos de origem e características duvidosas (os chamados “piratas”) e boa calibragem dos equipamentos (pressão, velocidade de trabalho e tipos de bico adequados; limpeza de filtros e bicos) são indispensáveis para garantir uma ação satisfatória dos inseticidas.
Assim, embora a pulverização seja o principal método utilizado para tratamento fitossanitário da cultura do algodoeiro, esta tem sido realizada de maneira empírica. Conhecimentos básicos sobre pulverização são desconhecidos pela maioria dos agricultores, técnicos e responsáveis pela aplicação, conseqüentemente problemas de controle de pragas como o curuquerê resultam em desperdícios significativos de produtos, de mão-de-obra e de produtividade de algodão.
Segundo Ramos, 1997, em várias culturas diferenças superiores a 30% na vazão dos bicos da barra. Rotação inadequada do equipamento, causando deficiência na agitação e a segregação de pós-molháveis; filtros de malha inadequada, causando entupimento excessivo dos bicos ou retenção do produto; inadequação do tamanho de gotas à operação, potencializando as perdas por deriva e vazamentos são as causas mais comuns de perdas de produtos fitossanitários no campo.
Na maioria dos casos em pulverizações se associa a eficácia do controle principalmente ao volume de calda aplicado, deixando de lado todos os outros fatores envolvidos na eficácia de uma aplicação. Dessta forma, não bastando apenas conhecer a dose do produto aplicado por hectare, é importante quantificar o produto que chega às partes da planta onde está o alvo a ser atingido. O curuquerê-do-algodoeiro, por exemplo, é facilmente encontrado na folha e por toda a planta, assim, é importante uma boa distribuição do produto por toda a planta, principalmente quando se utiliza produto de ação local (sem redistribuição no vegetal). A boa distribuição do produto aplicado e a definição do tamanho de gotas adequado são fundamentais para se obter eficácia nas pulverizações.
Quando se entende que o produto que efetivamente controla a praga é aquele que atinge o alvo, e não o aplicado, e que, quanto menor a diferença entre o volume na ponta de pulverização e o que atinge o alvo, mais eficaz e econômico se torna o tratamento fitossanitário das diferentes culturas (Ramos, 2003).
É indispensável entender que as folhas agem como um filtro, protegendo o curuquerê e dificultando a penetração das gotas na cultura. Esse filtro é variável com a arquitetura da planta, a área foliar e o estádio de desenvolvimento da cultura. Se imaginarmos o algodoeiro desde a emergência, passando pelos primeiros botões florais e primeiro capulho, até o início da abertura destes, temos grande variação do tamanho da planta, além do aumento do tamanho e número de folhas. Nesse sentido, passam a ser necessários diferentes tipos de calibragens ao longo do desenvolvimento da cultura, buscando melhor atingir o alvo e obter melhor eficácia de controle. Trabalhos realizados nessa linha em outras culturas e no algodão comprovam que gotas muito grandes e/ou muito pequenas têm baixa eficiência na penetração (Saab, 1996; Matthews, 1999; Ramos, 2001; Bettini, 2005).
A escolha do modelo, da vazão e da pressão de trabalho da ponta de pulverização a ser utilizada está diretamente ligada à eficácia da pulverização, sendo necessário conhecer alguns conceitos básicos. As pontas de pulverização hidráulicas produzem diferentes tamanhos de gotas, e mundialmente a pulverização é classificada em faixas: muito fina, fina, média, grossa ou muito grossa.
Pelo exposto, as pulverizações no algodoeiro têm sido feitas sem o conhecimento de tamanhos de gotas comprovadamente adequado, oscilando bastante, levando a falhas de controle e as dúvidas quanto à eficácia de alguns produtos, o que evidencia a necessidade de trabalhos que avaliem a penetração de gotas na planta, uma vez que algumas das principais pragas dessa cultura ocorrem por toda a planta. Com esse objetivo, têm sido realizadas avaliações da eficácia da penetração de diferentes tamanhos de gotas de pulverização no algodoeiro em diversas alturas da planta.

José Ednilson Miranda,
Embrapa Algodão
Paulo Cesar Bettini,
Syngenta

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